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Análise de "Tropicália", de Caetano Veloso.  escrito em sexta 18 setembro 2009 14:35

"O Tropicalismo, como já exposto aqui, foi um movimento que pretendia intervir na cena cultural do país através da música e, por esta, criticar a falta de expressão que se via impedida pelas regras impostas pelo regime militar de Costa e Silva em 1967.

Com o Ato Institucional nº5, a repressão contra ativistas e intelectuais se oficializou, chegando a levar Caetano Veloso à prisão no dia 27 de dezembro.

Por causa de toda essa repreensão criada na época, o cantor criou a canção Tropicália visando esconder sua ideologia e crítica por metáforas. Nota-se, inicialmente, uma crítica à política brasileira, quando afirma, no início da música "Tropicália", que "eu oriento o carnaval (...) no planalto central do país", fazendo uma referência a Brasília como algo similar a uma festa anárquica.

Na canção, o sujeito se encontra na primeira pessoa do singular, como agente ativo no processo de construção desse cenário: os meus pés, eu oriento, eu organizo, eu inauguro, dando a entender que seu posicionamento é bem próximo dos acontecimentos políticos vigentes da época. Percebe-se no primeiro verso o sujeito autor, aqui colocado como ativo no processo, afirma que é dono de suas atitudes e que nada existe acima dele além de aviões. No segundo verso ("sob os meus pés os caminhões") entende-se que os caminhões citados são uma metáfora que se refere à sociedade brasileira, pisada e humilhada. 

Essa posição esclarece a variedade de recursos linguísticos utilizados por Caetano, uma vez que não se fala em povo, mas em caminhões, aparentemente não tendo relações semânticas. É uma forma velada muito bem utilizada pelo sujeito-autor. Logo, então, o primeiro refrãose encontra a associação fonética entre "palhoça" e "palhaço", dando a entender que este é o povo brasileiro sendo feito de bobo. A opção pelo termo "palhoça" disfarça a crítica e a repetição do fonema /s/ pode nos remeter à ideia da gargalhada irônica de quem está por cima.

Na segunda estrofe teremos uma crítica mais severa e mais trabalhada. "E no joelho uma criança sorridente, feia e morta estende a mão": Nordeste brasileiro. Embasando-nos no mapa do Brasil, é exatamente no Nordeste que temos uma uma forma semelhante com um joelho dobrado, onde crianças passam fome, abandonadas e esquecidas pelo governo.

No segundo refrão, podemos perceber o jogo fonético que nos leva à ideia de sons de uma metralhadora (ta, ta, ta, ta), símbolo representante da morte pelo genocídio. O que fica evidente é a presença de uma relação ao período de mortes ocasionado pelas duas grandes guerras mundiais.


As metáforas da terceira estrofe confirmam a ideologia do sujeito-autor e seu posicionamento crítico em relação ao governo federal. No pátio interno há uma piscina, é assim mesmo que se forma o Palácio do Planalto: na praça dos Três Poderes há uma imensa piscina, onde não se pode tomar banho. A água é azul, cristalina, exaltando as belezas naturais. Na mão direita tem uma roseira, autenticando eterna primavera: nesse fragmento nota-se a metáfora da rosa, lá sempre é primavera, sempre é tudo belo, todos vivem felizes. E no jardim os urubus passeiam (...) entre os girassóis, é evidente que o termo “urubus” é referência aos políticos, que passeiam, aproveitam o poder que têm nas mãos. 

No próximo refrão, novamente um jogo sonoro de efeito surpreendente: Viva Maria, ia, ia, viva a Bahia, ia, ia, ia, ia. Maria e Bahia simbolizam o povo sofrido. E a repetição da sílaba “ia” tem efeito sonoro exatamente oposto. Esse repetição oral altera a posição das vogais e percebe-se um grito de dor: ai, ai, ai, ai. Se Caetano Veloso tivesse optado por repetir, na escrita, a sílaba “ai”, a censura cortaria esse trecho, por ficar evidente a crítica ao governo através da dor do povo. Mas ele, magistralmente, inverteu as vogais, e o grito de dor só é perceptível aos nossos ouvidos, não aos nossos olhos. 

A quarta estrofe tem condições amplas de produção. É um momento complexo de interligação entre o texto e o discurso do sujeito-autor. Ideologicamente, ele nos mostra que a crítica acentuada é feita diretamente ao alvo: o presidente da República, o militar ditador. No pulso esquerdo o bang-bang, simboliza o poder; em suas veias corre muito pouco sangue, percebe-se a crítica à falta de sensibilidade do governante aqui criticado, que não se emociona ao ver a situação em que está seu país. Mas seu coração balança um samba de tamborim, mostra que, apesar dos problemas, o governante comemora sua posição, seu poder, sem se preocupar com o povo sofrido. No final dessa estrofe, ele põe os olhos grandes em mim, o sujeito-autor muda o foco da primeira pessoa que inicia o discurso. De poderoso a combatido, essa pessoa denuncia ser o alvo das perseguições, ele se coloca como um perseguido, um sujeito que deve se calar, que não tem o direito de abrir a boca para criticar, pois estão de olho nele. 

No refrão, o suieito-autor faz nova brincadeira fonética. Aproveita dois “ícones” nacionais, Iracema de Alencar e Ipanema de Vinícius, para repetir a última sílaba, formando, assim, o adjetivo má. Esse adjetivo nos remete à administração pública, ao governante tirano, à sua índole, à sua alma, à sua visão egocêntrica, poderosa, dona de si. Ao mesmo tempo, é possível notar que a sílaba “ma”, pode nos remeter a um alguém que invocamos em caso de necessidade e que temos certeza de que vai nos amparar: “ma” de mamãe. É ela que nos protege, nos acode, nos ajuda quando precisamos. É ela que estende o braço, que não nos abandona quando precisamos. Diferentemente do governante público, que aproveita seu poder em benefício próprio e se esquece do povo, objeto de seu governo. 

Finalmente, na última estrofe, as metáforas remetem ao povo, suas alegrias e tristezas. O trabalhador que enfrenta a semana de pesado trabalho para garantir o sustento, com dificuldade. Domingo é o fino-da-bossa, é o único dia em que o trabalhador pode ter um pouco de alegria, vai aproveitar a vida, descansar da labuta da semana. Segunda-feira está na fossa, porque tem que trabalhar. Aqui o autor materializa a cultura do povo brasileiro e o trauma desse dia da semana, que literalmente indica o fim do descanso e o início da labuta. O conectivo porém indica a oposição entre o trabalhador e o governo. O monumento é bem moderno é a metáfora do presidente, do poder, não disse nada do modelo do meu terno, não liga para o trabalhador, para sua aparência, para seus problemas. A crítica vai ficando mais direta, mais contundente, embora as metáforas, estilo predominante no discurso do sujeito-autor, isentam-no de qualquer culpa, de qualquer castigo. O discurso se encerra com uma intertextualidade com três grandes nomes da MPB: Roberto Carlos, que tudo mais vá pro inferno; Ronnie Von, viva a banda e a grande Carmem Miranda. 
O sujeito-autor quis nos mostrar que não está sozinho nessa luta contra a opressão e que pode aproveitar o poder da música e da poesia para gritar e clamar por justiça, por direito de expressão, por liberdade de ir e vir, de cobrar ação dos governantes, de criticar o que não está bem. E pede tudo isso, no final, com mais um maravilhoso jogo fonético: banda, da, da, (...) Miranda, da, da, da, da. A sílaba “da” nos remete à forma verbal de “dar”, no imperativo. Funciona, dentro de seu discurso, como uma súplica: eu quero, eu preciso, eu necessito, eu exijo. 

É possível notar, ao longo do discurso do sujeito-autor, a concretização de sua ideologia através do sentido das palavras. O trabalho magistral com as metáforas requer, do leitor, um sentido aguçado e crítico. Não é fácil perceber seus sentidos. É necessária uma compreensão aprofundada, que deve ir além da inteligibilidade e da interpretabilidade. O discurso de Caetano Veloso soa como uma crítica acirrada contra a ditadura militar e contra a falta de liberdade de expressão. O momento histórico era complicado. As condições de produção do discurso eram restritas, censuradas. Era preciso dar sentido às palavras, sem, no entanto, deixá-lo claro. Sua posição política é extremamente crítica, forte, corajosa. As palavras, em seu discurso, fogem da evidência. É legítimo que ele se aproprie dos discursos vigentes na época, pois muitos foram perseguidos, torturados e até condenados à prisão e à morte por não concordarem com o regime nada democrático imposto pelo governo federal. 

Sintaticamente, o discurso do sujeito-autor é montado de forma simples, com predominância da ordem direta dos termos da oração e com uma tendência acentuada ao uso de adjuntos adverbiais, que funcionam como um localizador do alvo da crítica. O brilhante jogo fonético dos refrões, mesclam sonoridade, musicalidade e crítica. Há uma tendência à utilização de frases curtas, para restringir seus sentidos. Os períodos, na maioria compostos por coordenação, servem para interligar as idéias e mostrar o distanciamento, a independência inter-relacional entre as idéias, remetendo-nos ao distanciamento entre o governo e o povo. O uso de adjetivos, embora em número reduzido, servem para caracterizar o poder do governo e a necessidade do povo. Os substantivos, em sua maioria concretos, servem para criar as principais metáforas. Através dessa materialização da linguagem que se criam os sentidos e se percebe a ideologia dominante."


Fonte (salvo pequenas modificações):http://www.webartigos.com/articles/6206/1/a-tropicalia-e-a-analise-de-seu-dicurso/pagina1.html

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3 comentário(s)

  • Isabela Lopes mailto

    Sáb 18 Jan 2014 16:40

    Incrível a análise. Detalhes que eu jamais interpretaria ouvindo a música. Parabéns!

  • palavramarginal Qui 24 Set 2009 03:29
    Gente se vocês fizessem um resumo do texto ficaria bem melhor!

  • poetasdobrasil Qua 23 Set 2009 10:50
    Pessoal, não é lagal "sugar" por inteiro um texto como esse, quero dizer, pois é um texto autoral. Reparem que é de um professor, tem até a foto dele mais abaixo do fim do artigo. É deselegante. Mesmo indicando o link . Neste caso teria que iformar o autor.
    Vocês tem que aproveitar os recursos/as mídeas diversas.
    Dar dicas é algo legal e leve - há vários sites sobre Tropicalismo, material não falta. Achou um site legal com um vídeo, por exemplo, captura ele (o vídeo), faz um texto próprio sobre ele e linka o site/a fonte nas dicas de leitura. Descrever o site sugerido também é legal. Aliás, sempre é de bom tom descrever minimamente o hipertexto linkado. -- Marciano Lopes --


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